Apenas três dias - intensos, diria - foram suficientes para descobrir uma vida toda de sabotagem. Sim, seu cérebro pode ser o grande responsável por muito de seus fracassos. Sejam eles pessoal, profissional ou sexual. 

 

 

 

Confesso que torço o nariz para essa modalidade de auto-ajuda apelidada de Coaching. Sempre me pareceu ser dotada de um discurso pronto e enlatado que compacta todos os nossos desejos e os recria com uma fórmula de sucesso. Se der certo, bom pra você. Se der errado, o problema foi você. Pensando bem, a melhor saída, talvez, seja encarar alguns anos no divã. Mas a psicanálise levaria muito tempo e eu precisava de respostas urgentes para a minha insatisfação e resultados práticos imediatos para a necessária sobrevivência. Foi então que decidi encarar uma nova modalidade do que imaginava ser de auto-ajuda, mas pouco conhecida: o NeuroCoaching

 

O método, desenvolvido por um psicanalista, biomédico e doutor em neurociência, pretende promover não a mudança de uma ação, mas de um processo muito mais profundo, já que a técnica parte do princípio que somos seres biopsicossociais e por esse motivo são inseparáveis dentro do processo de mudança.  

 

Confesso que reconhecer uma emoção desconfortável não seja um exercício simples, mas decididamente fundamental para nos trazer respostas que apenas quem o faz as obtém. Para o NeuroCoaching, mudar, antes de tudo, é mais que produzir ações práticas, mas sim assegurar uma transformação do sentir e esse processo - muitas vezes doído - começa dentro de cada um. E nos três dias submersa em busca da descoberta das minhas emoções mais escondidas, descobri que sim, é possível seguir em frente e acreditar nos mais profundos desejos e realizá-los. Bacana, né? #Sóquenão. 

 

Há um longo e doloroso caminho a percorrer. Antes, muito antes - como ocorre na psicanálise - é preciso ter contato e navegar em um mar de profundidade turva e sombria. O que pode ser e foi uma experiência muito dolorosa e impiedosa. Tão doído quanto o nascer de uma criança, quando deixa pra trás um mundo confortável e é arremessada abruptamente com a missão de lutar pela sobrevivência. 

 

Como disse Deepack Chopra, somos as únicas criaturas na face da terra capazes de mudar nossa biologia pelo que pensamos e sentimos. Um surto de depressão pode arrasar seu sistema imunológico; apaixonar-se, ao contrário, pode fortificá-lo tremendamente. A alegria e a realização nos mantém saudáveis e prolongam a vida. A recordação de uma situação estressante não passa de um fio de pensamento e pode liberar o mesmo fluxo de hormônios destrutivos que o estresse.

 

Você quer saber como está seu corpo hoje? Lembre-se do que passou ontem. Quer saber como estará seu corpo amanhã? Olhe seus pensamentos hoje! Ou você abre seu coração ou algum cardiologista o fará por você. (Chopra)

 

Nos dias que seguem, somos estimulados a reconhecer e a desenvolver forças capazes de ultrapassar resistências internas e interferências, a fortalecer a identidade e valores e com isso resgatar os sonhos e os objetivos para o mundo real. Mas para que isso ocorra, é necessário mexer em um vespeiro e estar preparado para se despir das amarras e das picadas que invariavelmente virão. 

 

Se conseguir passar ileso por isso tudo, sem desistir no meio do caminho (e isso acontece) é possível abrir-se para um novo trajeto, agora livre de algumas crenças acumuladas e que sem perceber nos aprisionam como mecanismos inconscientes de defesa.  

 

E nessa jornada, somos levados a enfrentar nossos monstros e nossos medos. A neurociência explica que os eventos perturbadores do passado são revividos o tempo todo em nosso aparelho psíquico. O simulador emocional prevê situações ameaçadoras no futuro e que muitas vezes não passam de uma fantasia produzida pelas próprias crenças. No fim, a maioria desses acontecimentos inquietantes nunca se materializam, e entre os que realmente ocorrem, muitas vezes a aflição experimentada é mais leve e breve do que se esperava. Não disse lá no título que seu cérebro te sabota?

 

Imagine-se declarando seus sentimentos a alguém, isto pode desencadear um filme que termina em rejeição e decepção. Contudo, quando nos abrimos com uma pessoa, não é verdade que acabamos nos sentindo muito melhor? E a isso tudo chamamos de crenças. 

 

E para que nossas crenças sejam preservadas, um dos recursos inconscientes usados por nosso cérebro para nos proteger, são sacados os soldados individuais representados pelos mecanismos de defesa. E eles são nada além de recursos produzidos pela psique a fim de proteger da tensão e qualquer manifestação que coloque em perigo a integridade do ego, fazendo com que não consigamos lidar com situações que por algum motivo nos pareçam ameaçadoras. 

 

Esses mecanismos são representados por ações que em sua imensa maioria não nos são percebidas. É por isso que depois de um dia duro no trabalho, ao chegar em casa descontamos no outro a nossa ira. Ou quando fingimos que nada aconteceu, anulando o que nos incomodou profundamente. Quando chutamos - literalmente - o balde devido ao acúmulo de tensões não explicitadas e jogamos fora três anos de trabalho. Outras formas do mecanismo de defesa é terceirizar a culpa, é transformar a dor em poesia, em música e até mesmo quando inconscientemente não reconhecemos algum sentimento, desejo ou fantasia. Todas elas formam as crenças que inconscientemente nos protegem. Mas nos sabotam. E nos impedem de conquistar os nossos sonhos porque não nos deixam perceber onde é preciso mudar.

 

"Somos feitos da mesma matéria dos sonhos" (Shakespeare)

 

Embora a vida tenha muitos prazeres e alegrias, há também inúmeras preocupações e tristezas. São as emoções que alimentam o processo evolutivo da espécie, como uma estratégia humana que assegura nossa sobrevivência. Nesse processo, ao menor sinal de problema, um alarme do sistema nervoso apita para nos lembrar que precisamos seguir em frente. 

 

Contudo, biologicamente, estamos sempre em estado de alerta e ansiosos movidos pelo temor. Somos mais propensos a estímulos negativos. Sim, o negativo supera o positivo sempre. Nos relacionamentos entre nós ditos humanos, são necessárias cinco interações positivas para compensar os efeitos de uma negativa. O que se diz de ruim de uma pessoa tem mais peso do que o que se diz de bom a respeito dela. Por isso as experiências ruins criam círculos viciosos, tornando a pessoa pessimista, reativa e inclinada a ver-se de maneira negativa. Isso comprova que o cérebro possui uma propensão ao negativismo que o prepara para o escape, o que gera inúmeras formas de sofrimento, entre as quais a ansiedade. 

 

As tendências negativas alimentam e intensificam outras emoções como a raiva, a tristeza, a depressão, culpa ou vergonha, enfatizam falhas e perdas passadas, subestimam habilidades atuais e exacerbam futuros obstáculos. Assim, a mente tende a fazer julgamentos injustos a respeito do caráter, da conduta ou da capacidade de uma pessoa. 

 

Além de nos manter vivos, o cérebro é responsável pelas emoções, percepções e pensamentos que guiam nosso comportamento, definindo nossas ações no cotidiano. É a nossa massa cinzenta a responsável pela consciência da própria mente.

 

Somente o homem arrepende-se do passado, culpa a si mesmo pelo presente e se amedronta diante do futuro. Ficamos frustrados quando não conseguimos algo e desapontados quando algo que gostamos chega ao fim. Nos aborrecemos quando sentimos dor, com raiva em relação à morte, tristes diante da tristeza que sentimos ao acordar. Esse tipo de sofrimento - que acompanha muito da nossa infelicidade e descontentamento é o cérebro que constrói e inventa. A grande ironia é que se o cérebro é a causa do sofrimento, pode ser também a cura. Mas é preciso encontrá-la. Ela não vem de graça.

 

Ao longo dos dias no processo de NeuroCoaching você descobre que ao tentar se conhecer, reconhecer as crenças e os mecanismos de defesa que limitam a sua vida, poderão ser - juntas - a mola que te levará a uma transformação interna para alcançar seus objetivos. É necessário durante o processo enfrentar questões das quais quer fugir e encarar o que te impede de seguir em frente. É encorajado a olhar para o que você não quer ver, mas que após esse contato fará modificações importantes na sua jornada. A nossa sorte é que o cérebro, este vilão desconhecido e intrigante, está em constante mutação e ajuste. 

 

Sob a perspectiva do NeuroCoaching, é necessário lançar mão de três ferramentas que identifiquem o objetivo final. Por meio de perguntas que nos fazem pensar, de um mapa das emoções que denunciam nossas dores físicas que são a representação da dor da alma, uma matriz de crenças que nos farão encontrar o verdadeiro significado de nossa busca, e da impiedosa roda da vida, que nos mostrará o tamanho do estrago - ou não - das nossas relações. De todas elas. E terá que ser forte o bastante e não desmoronar e seguir em frente quando e perceber o resultado de suas escolhas, baseadas em suas crenças que por medo, miopia emocional se esconderam no mais profundo e escuro bem guardado e agora à mostra, esfregadas de forma nua e crua na sua cara. Quem disse que viver seria fácil?

 

Não, ainda não cheguei ao final, será preciso fazer a lição de casa e quem sabe ter que mudar 180 graus a rota e reiniciar de um outro ponto, sob uma nova perspectiva.  E eu sei que será necessário - ainda - uma descomunal vontade de mudança para transpor os obstáculos criados por mim, pelas minhas crenças, pela autossabotagem que insistem aparecer no caminho. A começar pela maneira de enxergar o outro. Se o resultado desse processo será o esperado eu não ainda não descobri. Mas eu prometo tentar.

 

*Este texto, apesar de assinado por mim, não é meu. Ele foi retirado em grande parte da apostila do Dr. Tiago Oliveira, NeuroCoaching, responsável por esta tentativa de transformação. Eu apenas incluí algumas impressões.

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